Curitiba pode ser conhecida olhando para frente, seguindo o mapa até a próxima atração, ou olhando para os lados. A segunda opção revela uma cidade bem mais interessante.
No Centro e em São Francisco, poucos quarteirões concentram calçadões, praças, fachadas de diferentes épocas, pisos antigos e construções que sobreviveram às transformações da capital paranaense. A própria cidade mantém um roteiro oficial a pé por essa região, justamente porque boa parte de sua história urbana pode ser percebida caminhando.
Em 48 horas, a proposta não é percorrer Curitiba inteira. É usar dois dias para entender como uma cidade muda sem que seja necessário entrar em um carro a cada nova parada.
Primeiro dia para descobrir quando a rua virou lugar de permanência
A Rua XV de Novembro é um ótimo começo porque ajuda a contar uma mudança importante na relação de Curitiba com seus pedestres.
O trecho conhecido como Rua das Flores tornou-se calçadão em 1972, sendo pioneiro no Brasil na transformação de uma importante via central em espaço exclusivo para pedestres. Seu trecho histórico reúne construções de diferentes períodos, galerias, mobiliário urbano e o característico piso em petit-pavé.
Não atravesse a Rua XV apenas para chegar a algum lugar.
Repare na largura destinada às pessoas. Observe os bancos, os canteiros e as fachadas acima das vitrines. Algumas construções revelam detalhes que praticamente desaparecem quando o olhar permanece no nível da calçada.
Para crianças, vale propor uma brincadeira: encontrar o edifício que parece mais antigo e aquele que parece mais recente. Não é necessário acertar a data. A graça está em descobrir quais pistas levaram a cada escolha.
Praça Osório até Praça Santos Andrade sem transformar tudo em atração
O eixo histórico protegido da Rua XV se estende da Praça Osório à Praça Santos Andrade. É um recorte particularmente interessante porque a caminhada permite acompanhar diferentes momentos da paisagem urbana sem precisar construir um roteiro cheio de desvios.
Nesse caminho aparece o Bondinho da Leitura, instalado originalmente em 1973 e hoje utilizado como biblioteca, com acervo para diferentes idades.
Mais adiante, a Praça Santos Andrade muda novamente o cenário. Ali está o edifício histórico da Universidade Federal do Paraná, construído no início do século XX.
A ideia não é entrar em todos os lugares. Em uma viagem de 48 horas, selecionar também significa deixar algumas portas fechadas. Uma caminhada urbana ganha profundidade quando existe tempo para perceber o espaço entre os pontos conhecidos.
Segundo dia para procurar a Curitiba anterior ao calçadão
No dia seguinte, troque a linearidade da Rua XV pelas ruas do Setor Histórico.
A Praça Tiradentes funciona como uma espécie de dobradiça entre esses dois momentos. Considerada o marco inicial da cidade, conserva inclusive trechos do antigo calçamento visíveis sob placas de vidro.
A poucos minutos dali, o desenho urbano começa a mudar.
O Largo da Ordem e as ruas próximas concentram algumas das construções mais antigas de Curitiba. O conjunto histórico foi delimitado oficialmente em 1971 e inclui edificações do século XVIII, além de exemplares de influência europeia construídos posteriormente.
Aqui vale diminuir a velocidade.
Em vez de procurar somente grandes fachadas, observe portas, janelas, telhados, diferenças de altura entre construções vizinhas e a maneira como ruas mais estreitas alteram a sensação de distância.
Um bebedouro conta uma história que o prédio não conta
No Largo da Ordem existe um detalhe fácil de atravessar sem perceber: o antigo bebedouro.
A presença dele remete ao período em que viajantes chegavam à região acompanhados de animais e utilizavam aquele espaço durante a passagem pela cidade. O Largo teve papel comercial importante desde o século XVIII.
Para uma criança, esse objeto pode dizer mais sobre a Curitiba antiga do que uma sequência de datas.
Pergunte para que ela imagina que servia aquela estrutura antes de explicar. Depois compare a função daquele espaço no passado com o que existe ao redor atualmente.
A história deixa de ser apenas algo escrito numa placa e passa a ser uma tentativa de reconstruir a cidade que existia ali.
Paço da Liberdade para enxergar duas épocas na mesma fachada
Na Praça Generoso Marques, o Paço da Liberdade acrescenta outra camada à caminhada.
Inaugurado em 1916, o edifício foi sede da prefeitura e reúne elementos neoclássicos e art nouveau. Restaurado, preserva características originais e atualmente funciona como espaço cultural.
É um bom ponto para comparar com os sobrados vistos anteriormente.
Não é preciso conhecer estilos arquitetônicos para perceber diferenças. Basta procurar simetria, ornamentos, tamanho das janelas e proporção da construção.
Em dois dias, a criança começa a montar uma cronologia visual sem precisar decorar nomes.
Passo a passo para aprender a ler uma rua
Escolha uma quadra e, durante cinco minutos, esqueça o mapa.
Primeiro, olhe para o chão. O revestimento muda? Há alguma parte preservada ou diferente?
Depois, levante os olhos. Compare o térreo dos prédios com os andares superiores. Uma fachada aparentemente comum pode guardar detalhes antigos acima das lojas.
Procure repetições. Janelas, sacadas, alturas e materiais ajudam a identificar construções que parecem pertencer à mesma época.
Encontre uma ruptura. Procure um edifício claramente diferente dos vizinhos e tente descobrir o que mudou.
Por último, vire-se. Uma rua histórica observada no sentido contrário frequentemente revela perspectivas que passaram despercebidas.
Esse pequeno método pode ser repetido apenas uma ou duas vezes durante as 48 horas. Assim, continua sendo descoberta, não tarefa.
Quando a cidade vira parte da brincadeira
Depois de dois dias, talvez a lembrança mais forte de Curitiba não seja uma única construção.
Pode ser o piso visto através do vidro na Praça Tiradentes, o velho bebedouro que despertou uma pergunta, uma janela encontrada acima de uma fachada moderna ou a surpresa de descobrir por que a Rua das Flores pertence aos pedestres há tantas décadas.
É aí que caminhar deixa de ser apenas a maneira de chegar.
Quando uma família começa a procurar pistas nas fachadas, no chão e no desenho das ruas, a cidade passa a participar da viagem. E Curitiba oferece algo especialmente interessante para esse tipo de descoberta: em poucos quarteirões, é possível caminhar pelo presente enquanto pequenos pedaços do passado continuam visíveis.